Não cabia mais naquele corpo o medo. Era chegada a hora de expulsar, libertar-se. A doçura ficava escondida. O domínio do medo era intenso, mas tanto, que a fazia não ser capaz de sentir. Suas reações nunca eram de aproximação. Ela expelia, ela gritava, ela se fazia sozinha. Mas era amada, por muitos, pelo ser humano transparente que era. Ficava distante, sempre, dos sentimentos, fingindo aproximação em encontros, conversas, festas. Ela era uma menina, presa a um corpo e atitudes envelhecidas. Quando a menina tentava sair, era permitida, por tempo determinado. Aquela menina merecia ser feliz. Só a dona da prisão não via...
Fez da sua vida seu trabalho. Seu trabalho era o universo conhecido, amado, entendido. Não se via sem aquela extensão do seu corpo. Transformou-se em mesa. Dura, fria, seca. Rangia quando pesada, rachava quando sobrecarregada. Não tinha escape. Pra onde ir quando não se abre a porta de saída? O medo a fez não dividir mundos. A fez querer sempre juntá-los. O fez. E fez – se presa. Aprisionada em sua própria cela, a menina, não achava a chave. Nem a procurava. Gritava. De dor, pois o medo de não ser alguém, transformou sua vida em uma prisão. Medo daquele seu eu inventado um dia acabar...E vai acabar. Tudo tem fim. E no dia em que acabar, o que será da menina – mesa? Sem ter pra onde correr? A vida que se prende àquelas paredes vive só. As outras vidas vivem mundos.
A prisão, um dia, a fez ver que estava ali, longe, parada inatingível. Essa mesa atacava, tinha vida, furor, sangue quente. Porém os sentimentos intensos nunca eram para a transformação daquilo que tornara-se.
Essa menina não aceitava a mão que se estendia para a sua libertação. Relutava, brigava ainda mais. Temia. Temia gostar, se desprender e descobrir um novo mundo lá fora. Temia arriscar e talvez não ser amada, não ter amigos. Temia atravessar e arriscar. Fraqueza.
A mão cansou de ser expulsa, por ser real, por querer levar a mesa ao mundo mágico da vida. De coração partido, disse adeus. E deu-se o fim dessa saga.
C.L – 23 de novembro: para pessoas que insistem em não viver mundos separados. Abra e feche portas, sempre. Mantenha o seu direito de ir e vir.