Fases de mim, e o que fazes de mim. Pensamentos, dicas, críticas, choros, risos o que fizer parte da fase.
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sábado, 18 de agosto de 2012
Ela – pela falta que me faz.
Começou despretensiosamente num ponto de ônibus. Ela, já tinha sua casa, sua vida, tentava se libertar de alguns maus tratos. Ele, a procura de um se dar bem. E se deu. Parece que foi uma grande e enlouquecida paixão. Dessas, que destroem a vida.
Passado algum tempo, dentro dessa relação doída, traições e agressões, enfim, ela conseguiu o que mais queria na vida, pariu. Era uma noite de domingo, chuvoso agosto. Nasceu uma menina que não levou o nome que ela queria, e ele, que escolheu o nome, nem apareceu. Elas nasceram com 6 meses de diferença uma da outra, na exata mesma hora, com 36 anos de diferença, uma da outra. Elas, astrologicamente, era exatamente opostas. E se completavam. Cresceram juntas na função nova para cada uma, uma mãe e outra filha. Ele, foi viver outra vida, outra família. Elas, permaneceram juntas.
Passaram por todas as situações imagináveis, desde dificuldades financeiras a alegrias e risadas extremas. Elas, seguraram uma a mão da outra. Elas se amaram. A menina pequenina tomava conta dela e da casa, deveriam ajudar-se mutuamente, por falta de ajudas externas. Partiram. Muito arroz com ovo e macarrão para sustentar. Muita mudança de casa. Muita incompreensão. Muita. Vida de tensões e cordas bambas. Cresce. Cresce em um momento crucial o inimigo invisível, que ninguém sentia. Transformava um cotidiano de amor em brigas. Brigas que vinham das ignorâncias e ganâncias de outros.
Elas, aquela senhora, tinha um coração que abundava, mas nunca sabia como fazer, nunca por raiva, ela não carregava isso, apenas quando se tratava dele, mas de amor. Ela amava, do jeito dela, que não previa carinhos melosos nem declarações faladas. Mas durante a infância de menina, adoça as noites com beijinhos e cafunés. Ela, devorava livros e aos domingos colocava a vitrola para tocar desde cedo, enquanto cozinhava e fumava seu cigarro. A menina, arrumava coisas e sonhava. Elas caminhavam e dançavam.
Todas as dificuldades passaram juntas, choraram juntas, uma se transbordava, a outra mostrava fortaleza. Uma confiava na capacidade de resolução e decisão, a outra respondia positivamente. Elas iam ao cinema, aos bares, as festas. Elas se riam. Iam.
Vida adulta, muitas tristezas, muita dor, mas nunca o abandono. Amenina queria voar, correr o mundo, fez a sua vontade e foi. Ouviu, no primeiro embarque, já quando entregava o passaporte e segurava o choro: eu tenho muito orgulho de você. Lágrimas. E elas brigavam. Mas riam. Riam de situações que ninguém acreditaria que aconteceria, pois, os papeis eram por diversas vezes trocados. Cuidavam-se.
Quando enfim o Universo, de maneira cruel para que fosse entendido o recado, fez com que elas mudassem de lugar e tempo para que fossem, apenas as duas, felizes, o inimigo invisível começou a se manifestar com mais força. Em um dia, exatamente aquele cara, por um detalhe a distância, fez com que a menina soubesse a extensão das mudanças que estavam por vir. Assim seguiram 1 mês. Assim a senhora quase se foi, mas voltou, inteira, forte.
Deram continuidade a vida normal, mas a menina por mais que tivesse um mar a separá-las, estava mais presente do que nunca. E quando a vida parecia que levaria um outro, novo, inédito rumo, a menina voltou, como previsto, por que sabia que precisava voltar, mas não sabia que as razões eram outras. E elas passaram o último mês da vida delas juntas. E no exato número do dia que as duas nasceram, a senhora despediu-se da vida, sofrida, doída, mas que se ria, para sempre. Passou com semblante de paz. Elas, durante o mês conversaram sobre esse momento, no fundo, elas sabiam. Elas brigaram como há muito não faziam, e acabaram em gargalhadas. A menina cuidou como podia, assistiu todas as necessidades, passou perfumes, cremes, trocou fralda entre gargalhadas, mas ainda achou que fez pouco. A senhora, estava em paz e não sofreu. Foi recompensa divina pelas coisas boas que fez em vida, por muitos. Pelos perdões que soube distribuir, sobre os cuidados que desdobrou por aqueles que nem eram da sua família, e também por aqueles da sua família que a destruíam diariamente. Aquela senhora era feliz, ela dizia, sempre, que mesmo com aquela vida e todas as dificuldades, ela era feliz. Ela era inteligente, culta, e feliz. Que ela era grata pela menina, que com toda dificuldade ela criou, e também dizia, que agora ela poderia ir, pois, sabia que a menina aguentaria, já que na infância, sim, a menina dizia: se você se for, eu vou no mesmo instante também. E um pedaço dessa menina, como se estivesse na infância ainda, se foi naquela manhã de dezembro. E a menina ainda hoje, após 8 meses, sente uma dor tamanha. Mas ela sabe que aquela senhora, que não foi à toa foi SUA MÃE, falaria: “Que isso? Você não é assim? “ Talvez ela não era porque nunca a tinha perdido. Porque antes a distância era resolvida com um telefone, porque antes ela estava ao lado. Agora, vai dentro.
A menina, hoje mulher, não terá a honra de criar seus filhos, se os tiver, com a avó doce que a senhora seria. Mas dará gargalhadas lembrando da grande frase inusitada daquela senhora: “esse ai é bom partido, já vem sem sogra!”. A menina vem sem sogra, a partir do final de 2011. Não aprenderá sobre macrobiótica na infância, não verá mais o sorriso de contentamento que a senhora dava todas as manhãs e noites quando se cruzavam na casa. A menina nunca mais será chamada de “minha flor de laranjeira”. Mas a menina foi criada pra luta, pra superação, para a vida que está do lado de fora. A leoa cresceu num aquário de maluquices sãs, de bondade altruísta. Se alguém não acredita no significado altruísmo, é porque nunca conheceu a senhora.
Mais do que um prazer, com dores também, por ter nascido daquela mulher, foi também uma grande diversão em diversos momentos e uma honra. Elas se completavam. Simbióticas. Parceiras. Mãe e filha, acima de tudo. Foram, dentro das suas diferenças, felizes e se amaram mais do que tudo nessa vida. Não havia o que as separassem, mesmo em momentos de ira.
A senhora se foi...Mas deixou pra sempre a tatuagem.
A senhora, faz falta. Muita falta. A senhora, foi o melhor e o pior daquela menina. E ela, lá dentro, amava esse amor louco mais que tudo.
Caminhamos. Não. A menina caminha.
C.L.: Para minha mãe, Ilmara, a pessoa mais maluca, doce, mansa, brava, devota, que eu conheci. Para a pessoa que mais me amou na vida. E quem eu mais amei. A quem eu devo hoje, a força que tenho, a pessoa que soube negociar com o Universo a hora exata de deixar o palco, de sair de cena, pela sua integridade, pelo seu papel realizado, pela sua bondade. Saiu sem sofrer fisicamente. Olhou pra mim e deu o último sorriso falando: está tudo bem, vai ficar tudo bem. E, como estava previsto, ficou.O céu hoje deve ouvir: hummm...fica tranquilo, eu sei a filha que tive. Deixa ela, que ela sabe se virar melhor que eu. Se cheguei ao tempo que cheguei, foi por causa dela.
Para a MINHA flor de laranjeira. Pra sempre com a saudade que deságua em mar. Mar, nosso mar. Odoyá.
Nada é por acaso.
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Bem, o que dizer após fazer-me escorrer as lágrimas...
ResponderExcluirLembranças misturas me veio a mente... O mais lindo da vida, é o que carregamos do lado de dentro.
O que está do lado de fora, muda, sai de cena, transforma... Mas o que está do lado de dentro, são nossos tesouros... Nossa verdadeira riqueza.
Orgulho-me de ti. Porque sabe transformar os ensinamentos da vida em alicerce.
Parabéns pelo lindo texto!
Dona Ilmara de onde estiver ficará ainda mais orgulhosa da bela interpretação dada a sua história pela menina, agora mulher que tanto ela amou.
Eh... Essa menina sabe escrever!!
Kérol, Carol, Luz... Beijos no seu coração e na alma.