Confesso, do fundo do meu coraçãozinho, que trabalhar comigo não é fácil. Faço cara feia várias vezes, apesar de tentar diariamente mudar, grito, me perco e me acho, mas, acredito, trabalho. Não fujo do pesado, pelo contrário. Gosto de estar na atividade 100%. E diante disso, as oportunidades aparecem e eu as seguro com toda força, mesmo sempre existindo um probleminha ali outro aqui... Mas sigo a rima, e nunca deixo de aprender (ou pelo menos tentar). Pois, que pela segunda vez em um país estranho, no qual eu não entendo protocolos e um dito RESPEITO, sobrepõe-se a qualquer coisa. Mais um evento pro currículo, um daqueles que ninguém sabe muito bem pra onde vai, daqueles gostosinhos que a desorganização é plena e você é quem deve organizar algo que já acontece há 2 meses! Tenta de todas as formas tirar as idéias da cabeça, já que, não há REDE para compartilhar as ações, e ainda, não há REGRAS que façam com que todos tenham HÁBITO. Após a reclamação que me é peculiar, seguem, então, relatos do dia, que enfim chegou, tão esperado e sonhado.
Eram exatamente 4 mil crianças, a esmo, num campo com o gradil da “melhor qualidade” para suportar qualquer exaltação. Todas elas faziam parte daquele estereótipo África (o qual eu abomino): negras, pobres e sem rumo. Deveriam estar ali com seus professores. Mas em países abaixo da linha do Equador, educação é tratada como interesse político eleitoreiro, nãos como prioridade. Não havia, não existia a figura com autoridade chamada PROFESSOR. Talvez (pra ser legal), os que ocupam o cargo, nem tenham ido. Eu não os achava. Apesar do evento não ser propriamente bonito, para aquelas crianças era um grande acontecimento. Nesse momento, ponderamos as nossas visões e interpretações das coisas: bonito porquê? Por ser a única coisa, aquele momento no qual todas elas sentem –se ALGUÉM. Caminhamos. Batendo cabeça por que ninguém me percebe, e eu não percebo ninguém (no sentido de entender, mesmo), mas a coisa começa a fluir. Meu sangue ferve, já que, não consigo perceber putaria e ficar quieta, afinal, se é tão bom, faz sozinho e se esqueça que vivemos em COMUNIDADE. Bem, sem café da manhã, sem almoço, apenas com as guloseimas que guardei para o meu staff, sem comida, ninguém fica. Babilônia formada, mas vamos. Queriam que eu me transforma-se em 3, não, não dá pra fazer mitose. Sorry lá! Nem sou onipresente. Mas mesmo assim, caminhando. Primeiro show. Começa. Surge criança do ralo, da areia, da grana, de onde você puder imaginar, elas aparecem. E passando por lugares nos quais poderiam machucar-se, correndo, e encostando na grade super segura. Pânico. Grito pra conter, e quando vejo estou fazendo segurança embaixo do placo, com crianças que correm, gritam, cantam, estão felizes! Mas meu pânico não diminui. Falo com a artista, e penso, “tenho mesmo que avisar?”. Sim, pois, nesse momento surge a questão: RESPEITO. Isso, não há. Para definir, só a história. Um povo que passou por guerras, fome,e toda e qualquer pessoa que esteve aqui veio para explorar, não sabe o que é RESPEITO. Policiais com cassetetes nas crianças. Isso não pode ser possível, Policiais que reclamam de trabalhar, sim, isso é possível. Policiais que ganham a “mola”, o “extra” fardados, não, isso não é possível. Ninguém se respeitava, só no grito,isso, não é possível. CRIANÇAS. Apenas CRIANÇAS, causaram um alvoroço sem tamanho, e todas as delicadezes de um povo vêem à tona. Seguimos. Encerramos o evento com shows, partida de futebol, com direito a mandinga no escanteio, todo mundo num campo oficial de um time, no qual não HÁ iluminação à noite, retirando banners e recolhendo coisas, encerrou. Mas, a memória daquelas crianças e o cassetete, empurrões se, desculpas isso ficará para sempre. E a certeza de que, tudo é da forma como fomos criados para enxergar, também. Hoje, vivo em África. Tenho as minhas percepções, minhas teorias. Não posso hoje, consumir a “HISTÓRIA ÚNICA”, MAS, tenho o que é meu, a minha vivência, e sentidos, de tudo aquilo que RESPIRO. Sinto-me confortável em falar sobre, mesmo que não faça parte da história acima contada. Hoje vivo e cheiro África, uma terra estereotipada, e que aceita por conveniência o ser COITADINHO. E o mundo ainda gosta de ter esse COITADINHO. Mantém, subjuga, explora. Todo mundo e suas vantagens. Mas quais são essas vantagens? Não é possível alguém achar VANTAGEM ferir, maltratar, alguém! NÃO! Isso não é ADMISSÍVEL. Tenho milhões de momentos me perguntando por que estou aqui. E em alguns acho a resposta, que é óbvia: pra melhorar você e o outro. Minha vida não funciona assim também sem, pensar no outro, apesar de ser muito egoísta em outros. Mas RESPEITO, sim, eu conheço. CIDADÂNIA, eu conheço.
Daí passamos disso para aquilo, assim, numa força moçambicana de ser. O que pra mim não é DESREISPEITO, para os outros, É. E isso constato desde as relações mais próximas. Eu, BRASILEIRA que sou, e muito também pela criação que tive, não consigo “cagar” para alguém de fora no meu país. Pois, tá, aqui vai-se caminhando assim. E você resolve que trabalha em um lugar aqui, muda de casa, de vida, para estar aqui, e de repente, sente-se sozinha fazendo o que tem que fazer, já que, o empregador, parece, já fez muito por você, BRASILEIRA, que se acha. Não acho, tenho certeza. Injetamos dinheiro por aqui e mandamos milhões de profissionais por ano, Já que temos COMPETÊNCIA. Bem, que seja, no final de tudo, tenho que, pra variar, correr atrás do que é meu. Se eu fosse ALEMÃ, metade do esforço seria minimizado. Mesmo assim sigo. FIZ amigos, e escolhas. SIGO.
Esse mix todo é um desabafo, pequeno, do que vem acontecendo. Tive meu primeiro evento, vi minhas falhas, meus acertos. Redescubro esse mundo a cada momento. Sinto pena, amor, prazer. E feliz, por poder perceber tudo isso aqui.
C.L. 01/06/2011 – É. Sou capaz. E depois, mais informações...
espero ansiosa por mais informações. sofri junto lendo... muito orgulho de vc, carolzinha. vc é foda!
ResponderExcluirbjs
Carol, depois de estar em Africa e passar por alguns pouquinhos de desespero, angustia, prazer, revolta e descobertas (nao-necessariamente-nessa-ordem), me identifiquei muito com seu texto. É em Moçambique que vc esta de volta? Escreve mais, quero ler tudo.
ResponderExcluirBeijo,
Dani (amiga da Mi ai de cima)
Meninas!Obrigada pelo carinho! isso vale como um abraço daquele bons há distância! Escreverei sempre!
ResponderExcluirSim, Dani, estou em Moz. E realmente, estar aqui é uma experiência única, e não é qualque um que aguenta! bjusss